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A Regra 80/20


 

Invariavelmente atendo casais sem nenhuma educação financeira, palavras pesadas, mas que retratam a maioria da população brasileira. São pessoas que foram criadas, muitas vezes, em culturas familiares e visão de vida completamente diferentes e que, por amor, uniram-se em matrimonio e esqueceram de combinar o jogo “na alegria e na tristeza”.

Em nossas Clínicas Financeiras (termo utilizado para detectar falhas ou “síndromes” de uma vida financeira sem planejamento) percebemos que o simples levantamento das despesas familiares se torna quase um trauma para a sequência do projeto. Vamos para a realidade?

 

Vocês casaram, tem uma vida estável, um paga as despesas maiores da casa e outro arca com as outras e algumas do seu casal de filhos. Em certo momento percebem que junto, seus salários são de R$ 12.000,00 e que todo mês falta dinheiro e que, não fosse pelos 40 dias do cartão de crédito, vocês estariam no vermelho (na verdade estão). Procuram ajuda na internet por planilhas de controle pessoal, comentam com amigos que se veem na mesma situação e acabam sendo indicados para um Planejador Financeiro. Cansados de procrastinar a vontade de ter uma vida mais equilibrada e começar a poupar, agendam uma Anamnese (termo utilizado para a 1ª reunião com o Planejador) para ali contar a “dor” que estão sentindo.

 

Assim como um médico, nós Planejadores Financeiros Pessoais (PFP), precisamos entender qual a sua reclamação, onde está doendo mais, quais os sintomas que lhes trouxeram ao nosso encontro. Após ouvi-los com muita atenção e tomado nota de todas as reclamações, nós precisamos de exames, exatamente como os de sangue ou de urina, só que no caso de problemas financeiros, o principal chama-se Fluxo de Caixa. Para alguns, uma planilha simples de entradas e saídas, para outros o início de uma longa peregrinação no sentido contrário do caos.

 

Imagine você, homem da casa, que nunca prestou contas de seu extrato, nunca deixou faltar nada em casa, da noite para o dia ter que prestar contas de cada real que sai da sua conta. E você mulher, todo o segredo de quanto gasta no salão será revelado para seu marido que acha que um shampoo e um sabonete são a base de higiene pessoal de um ser humano……

 

Se tem uma coisa que qualquer pessoa preza, é sua PRIVACIDADE, e é para isso que apresento a vocês a Regra 80/20. Ela deveria fazer parte do Pacto Nupcial de todo casal. Quando percebi que a união de todo o dinheiro do casal causaria mais briga do que união, resolvi testar lá em casa, e foi a solução de todos os problemas. Afinal, como funciona? O casal mantém contas individuais separadas, onde recebem todo mês suas remunerações, até aí não mudou nada Rafael! Surge então as contas da casa, para essas a regra sugere (impõe) uma conta conjunta onde todo mês cada um deposita 80% de seus salários para ajudar nas despesas da casa. Não importa a proporção que cada uma ganha, se a mulher recebe R$ 8.000,00 e o homem R$ 4.000,00, ela vai entrar com R$ 6.400,00 e ele com R$ 3.200,00. Se houver aumento em qualquer um dos salários a regra continua a mesma.

 

Ok Rafael, e os 20% que sobraram, fazemos o que? Gastem com que quiserem, esse é seu dinheiro pessoal, serve para a mulher ir ao happy hour com as colegas de trabalho ou para o homem ir à barbearia e tomar quantas cervejas quiser. Aí está a resguardada a individualidade de cada um, você não precisa prestar contas, a não ser a você mesmo. Essa regra é um tanto quanto radical e precisa de um grau de planejamento avançado, vou explicar:

 

1° Para quem nunca anotou suas despesas: Você vai perceber que gasta muito mais que achava, vai bater um desespero e a conta “OUTROS” vai dominar seus extratos de conta e cartão. Aqui você não pode desistir pois é nessa fase que vamos determinar o percentual que o casal terá que injetar todo mês na conta conjunta. A regra dos 80/20 pode começar com 75/25 ou ainda 95/05, o que vai determinar para os próximos meses será a conduta de economia que iremos prescrever.

2° Para quem tem a maioria dos gastos no cartão de crédito: Como a fatura é o maior valor a pagar, do primeiro para o segundo mês, o casal não terá os 80% para depositar na conta conjunta. O ideal é que, controlem as despesas pessoais e comprem tudo no DÉBITO nos dois primeiros meses, no terceiro mês o salário vai estar limpinho, livre de cartões, é nesse momento que vocês acionam o mode on da conta conjunta e começam a pagar tudo com o cartão de débito ou crédito específico para contas da CASA.

 

Esses são os primeiros passos, no próximo artigo tratarei dos assuntos: Quem é responsável pelas contas da casa? E se sobrar ou faltar dinheiro, o que fazer? Se os meus 20% não sustentarem meus gastos pessoais, podemos renegociar? 

Quem é responsável pelas contas da casa? E se sobrar ou faltar dinheiro, o que fazer? E se os meus 20% não sustentarem mus gastos pessoais, podemos renegociar?

 

Pensa comigo, uma coisa é você ser responsável pelas compras, outra é você ser responsável pelos orçamentos. Lembra do slogan da empresa fabricantes de pneus, Pirelli? “…Potência não é nada sem controle…”. Essa é a realidade de muitas famílias, a tendência depois que a pessoa começa a ganhar mais, é gastar sem preocupação. O gerente do banco aumenta o limite dos cartões e começa o descontrole geral, ou seja, você tem o motor de uma Ferrari e os freios de um Fusca.

 

No momento que vocês já tiverem a consciência da regra 80/20, é hora de saber quem é responsável pelo orçamento, vocês podem ter dois cartões da mesma conta, mas alguém tem que coordenar os gastos previstos no orçamento. Rafael, nós vamos dividir essa função, podemos? Depois que vocês estiverem totalmente adaptados as novas regras sim, de início temos que definir quem será o “diretor financeiro” da casa, este ficará responsável por recepcionar todas as notas fiscais e lançar dia a dia na planilha de controle. Com um orçado mensal de R$ 1.000,00 para supermercado, dia 15 temos que ter comprado R$ 500,00, caso contrário teremos que apertar o cinto, perfeito?

 

Agora você que foi escolhido como diretor financeiro, está fazendo um excelente trabalho e percebeu que depois de pagar todas as contas e ainda já ter aportado o investimento mensal, sobrou dinheiro no caixa. Rafael, podemos aproveitar e ir a um bom restaurante? Lembra o que te trouxe até aqui? A lei da compensação é primeira desculpa para gastar mais do ganha, comer mais do que deve, dormir mais no outro dia porque trabalhou mais no dia anterior. Pense nisso, você está se educando financeiramente, aproveitem essa sobra e engordem suas reservas financeiras, até porque, inevitavelmente, existirão imprevistos em outros meses que farão com que ultrapassem o orçamento, é nessa hora que o controle de ontem salva o imprevisto de hoje, caso contrário, assim como numa empresa, que chamamos aqui de casamento, vocês terão que chamar aporte dos “sócios.  

 

Agora uma dúvida recorrente que gerou uma pergunta super interessante de uma de nossas leitoras, disse ela: Rafael, meu marido é médico e eu analista comercial, nossos salários tem uma diferença muito grande, se eu deixar 80% da minha renda para as despesas da casa, não consigo pagar minhas contas individuais com apenas 20% que sobram, o que fazemos? A melhor solução é sempre negociar. Vamos exercitar com números hipotéticos:

  1. Médico – salário de R$ 20 mil
  2. Analista – salário de R$ 5mil
  3. Despesas casa – R$ 17 mil, já contemplando a reserva financeira.

Se o médico entrasse com 80% da sua renda já teríamos R$ 16 mil e a analista com R$ 4 mil. Vamos ajustar? Se para ele está sobrando R$ 4 mil, para ela restará apenas R$ 1 mil, como ultrapassa o valor de despesas, vamos ajustar os percentuais? As despesas da casa correspondem a 68% do rendimento total do casal que é de R$ 25 mil, 85% é dele e 15% dela, seria justo fazermos essa mesma divisão entre as despesas? Ficaria assim: Ele pagaria R$ 14.500,00 e ela R$ 2.5000,00. Ficou mais justo?

 

O Planejamento Financeiro não se restringe apenas a análise de fluxo de caixa, o exemplo acima é restrito a  dúvida da regra 80/20, essas metodologias são utilizadas como gatilhos para educação financeira e servem de base para ativar a consciência para um plano maior, um PLANO DE VIDA.

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